Minha Pesquisa no TCAv —  Ananda Zambi

postado em: Atualizações | 0

Em mais uma edição do “Minha Pesquisa no TCAv”, série que apresenta as pesquisas em andamento dos mestrandos e doutorandos da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais, além de expor reflexões relativas à presença das audiovisualidades e da tecnocultura nos objetos empíricos da pesquisa, o trabalho a ser discutido essa semana será o, até então intitulado, “A tecno(contra)cultura do rock brasileiro em 1986”.

Me chamo Ananda, sou de Maceió (AL), sou jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atualmente faço mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na UNISINOS, na linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais, além de ser integrante do grupo de pesquisa TCAv. Me interesso pelo meio musical desde muito jovem e consegui realizar estudos vinculados a essa área já na graduação. Agora, resolvi dar prosseguimento a essa pesquisa na pós-graduação, 

Minha pesquisa pretendia, inicialmente, investigar como os elementos discursivos do rock brasileiro dos anos 1980 – principalmente as obras lançadas no ano de 1986, o ano mais frutífero do gênero musical – evidenciaram o processo de reconstrução da identidade cultural do país após décadas de repressão no regime militar (1964-1985). Ao ingressar no mestrado, fui desenvolvendo melhor, junto com meu orientador, o professor Tiago Lopes, e adaptando meu projeto inicial para uma pesquisa que valorizasse também o campo imagético do BRock. Então, a princípio pensei em analisar as visualidades das capas de disco de rock brasileiro lançados em 1986, mas aos poucos fui percebendo que os videoclipes do estilo musical da época seriam empíricos mais ricos e seria mais interessante explorá-los. Assim, a minha pesquisa visa, atualmente, analisar as audiovisualidades da tecnocultura dos videoclipes de rock nacional lançados nesse ano, buscando identificar como essas audiovisualidades se atualizam nesses empíricos e considerando que o estilo musical cumpre um papel importante no movimento contracultural do Brasil. Dito isso, proponho construir um conceito de tecno(contra)cultura.

O rock brasileiro dos anos 1980 é um objeto de estudo interessante porque ele tem particularidades audiovisuais muito próprias e se consolidou sob uma série de mudanças histórico-sociais concatenadas. Com a ditadura civil-militar se encaminhando para o fim (resultando, consequentemente, em uma maior liberdade de expressão), a economia se estabilizando, o aumento do poder de compra e o fortalecimento da cultura jovem, o BRock acabou se tornando um dos principais porta-vozes de uma geração reprimida por décadas e que estava vendo, enfim, o Brasil viver de novo uma democracia. Assim, muitas músicas de protesto foram feitas nessa época, fato que vai de encontro com o que Rodrigo Merheb afirma em relação ao rock e à contracultura: “a experimentação com novas tecnologias, sonoridades e letras de comentário ou incitamento à rebelião garantiu ao rock seu lugar na história como linha auxiliar dos movimentos sociais que confrontavam o establishment” (2012, p. 14).

O processo de abertura política também fez com que a globalização atingisse com mais força o país, e no que diz respeito à música brasileira, mais especificamente ao rock nacional, ela foi adquirindo e misturando elementos sonoros que estavam em alta no restante do mundo, como new wave, punk, ska, reggae, entre outros ritmos, além de agregar também sonoridades tipicamente brasileiras. No quesito visual, o movimento era fortemente inspirado pelo pós-modernismo e pela pop art.

A inclusão dos estudos da tecnocultura é fundamental para a minha pesquisa, pois se a cultura pautada pela técnica já está presente no decorrer de toda a história da humanidade, evidenciá-la em um trabalho sobre os anos 1980, época em que se acelerou uma revolução informacional, é interessante para verificar a evolução dos modos de captação e exibição da imagem e do som e compreender como isso interferiu nas audiovisualidades dos videoclipes da época e do BRock. 

O videoclipe é um formato audiovisual convergente (une mídias como cinema, televisão e rádio FM), não-convencional e livre, em que não há a necessidade de apresentar uma narrativa linear, sendo assim um terreno favorável para experimentação. Segundo Thiago Soares, em seu surgimento, nos anos 1970, o clipe era considerado um produto midiático com o puro intuito da divulgação musical – portanto, com forte apelo comercial – e que ganhou popularidade nos anos 1980 com o surgimento da Music Television (MTV), emissora de televisão dedicada a exibir ininterruptamente videoclipes nos Estados Unidos (2004). Portanto, o videoclipe, a partir dessa década, serviu “de trampolim para diversos agentes midiáticos da cultura musical (gravadoras, músicos, gêneros musicais específicos)” (HOLZBACH, 2014, p. 342) e ressignificou linguagens artísticas e comunicacionais. Nos anos 1980, consumir música implicava também em consumir imagem (ARAÚJO; ZARUR, 2014), e assim os clipes brasileiros da época evoluíram tecnoculturalmente, e o BRock pode explorar e desenvolver melhor suas audiovisualidades próprias nesse formato de mídia.

Como principal metodologia de análise, pretendo utilizar a cartografia de Walter Benjamin, que busca adaptar a ciência dos mapas ao espaço urbano, das metrópoles, intentando encontrar, através da ação do flâneur – figura inspirada no personagem criado pelo escritor Charles Baudelaire, que procura, caminhante à deriva -, referências afetivas e subjetividades que muitas vezes estão escondidas, mas que também constituem a identidade daquele lugar. Dessa forma, o narrador benjaminiano visa “tornar familiar o que é estrangeiro e, ao contrário, estranho o que é familiar” (CANEVACCI, 2004, p. 105). Ou seja, esse método coloca retalhos, resíduos, farrapos – tudo o que parece ser secundário ou excêntrico – como objetos principais de estudo. Na prática, isso implica organizar os objetos em constelações e coleções, de acordo com os sentidos produzidos pelos empíricos, e dissecá-los, conforme proposto na metodologia das molduras, de Suzana Kilpp (2002), que consiste em retirar os elementos audiovisuais do fluxo e analisá-las isoladamente em suas paradas, também levando em conta os territórios de significação. 

A principal motivação para utilizar o método cartográfico na minha pesquisa é a compatibilidade com a questão das passagens, que “contêm um elemento de redenção, do qual podem ser ‘despertados’ para encontrarem na sociedade sem classes sua realização” (CANEVACCI, 2004, p.113). Na minha pesquisa, pode-se relacionar o conceito de passagem com o ano de 1986 na cultura pop brasileira e no BRock em específico, visto que o país vivia um momento de transição histórica e, portanto, cultural: o fim de uma longa era de repressão e o início de uma promissora liberdade, ou seja, a permissão de viver o passado não vivido ao mesmo tempo que um futuro de possibilidades infinitas e sem restrições, trazendo uma sensação de sonho e utopia. Visualmente, isso gerou imagens em que o velho se entrelaça com o novo, criando uma uma coalescência de elementos predominantes das décadas 1960 e 1970 com os originários da década de 1980.

Para a pré-análise, realizei uma flânerie e coletei imagens relacionadas ao rock nacional dos anos 80, incluindo fotos de bandas e capas de LPs, e fiz uma pesquisa flutuante pelo YouTube, encontrando cerca de 30 videoclipes do gênero musical lançados em 1986, entre eles materiais de artistas como Titãs, Os Paralamas do Sucesso, RPM, Legião Urbana, Lobão, Capital Inicial e outros. Dentre esses materiais, selecionei nove vídeos e identifiquei entre eles, a princípio, três características em comum.

A primeira é que muitos dos clipes de rock brasileiro lançados em 1986 se passam em um ambiente urbano, como o videoclipe de “Alagados”, dos Paralamas, por exemplo, que foi gravado numa comunidade carioca, ou “Homem Primata”, dos Titãs, que foi gravado em sua maior parte no centro de São Paulo. Um clipe que não foi filmado em externa mas que simula um ambiente urbano é o de “Louras Geladas”, do RPM, cuja história acontece numa boate. Outro videoclipe que também se enquadra nessa característica é “Revanche”, do Lobão.

Dentro dessa coleção, identifiquei que os clipes pertencentes a esse agrupamento podem apresentar dois tipos de sentidos. O primeiro é a utilização de imagens da cidade como crítica social, em que se encaixam os clipes de “Homem Primata”, “Revanche e “Alagados”.

Frames capturados pela autora

O segundo tipo de mensagem que essa coleção de clipes pode apresentar é as histórias de relacionamentos fazerem parte da trama principal das obras. O vídeo que se encaixa nessa coleção é o de “Louras Geladas”.

Frame capturado pela autora

Outra característica muito presente que percebi foi o culto aos ídolos. Praticamente todos os clipes que observei têm como protagonistas as próprias bandas, mas alguns são constituídos basicamente dessa característica, a da banda como protagonista do vídeo em tempo integral. Exemplos que se encaixam nessa coleção são os clipes de “Envelheço na cidade”, da banda Ira!, e “Toda Forma de Poder”, do Engenheiros do Hawaii.

A terceira coleção é a que identifica uma constante evocação do passado, que também subdividi em dois temas: o sentimento de nostalgia, tratando o momento que passou como uma experiência boa que não volta mais, e o que evidencia os momentos ruins que não deveriam se repetir. No primeiro subgrupo, se encaixa o clipe de “Tempo Perdido”.

Frame capturado pela autora

No segundo aspecto, se encaixam os videoclipes de “Fátima” e de “Só o Fim”.

Os próximos passos da pesquisa incluem o aprofundamento nos aportes teóricos, a inclusão de mais videoclipes no corpus do estudo e o início das dissecações dos objetos empíricos escolhidos.

Texto: Ananda Zambi

REFERÊNCIAS:

ARAUJO, M. S. S.; ZARUR, Ana Paula. A visualidade da geração do BRock. CADERNOS UNIFOA, v. 02/2014, p. 27, 2014.

CANEVACCI, Massimo. Walter Benjamin, o antropólogo das metrópoles In: A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. São Paulo: Studio Nobel, 2004.

HOLZBACH, Ariane Diniz. Convergência na cultura musical: O videoclipe como sintoma da “revolução” analógica dos anos 80//CONVERGENCE ON MUSICAL CULTURE: THE MUSIC VIDEO AS A SYMPTOM OF THE ANALOGUE “REVOLUTION” OF THE 80S. Contemporânea Revista de Comunicação e Cultura, v. 12, n. 2, p. 340-359, 2014.

KILPP, Suzana. Ethicidades televisivas: sentidos identitários na TV: moldurações homológicas e tensionamentos. Tese de Doutorado. UNISINOS, 2002.

MERHEB, Rodrigo. O som da revolução: Uma história cultural do rock 1965-1969. Editora Civilização Brasileira, 2012.

SOARES, Thiago. Videoclipe: o elogio da desarmonia. Recife: Livro Rápido, 2004.

Deixe um comentário